Venenos & Remédios

Farmacologia

similia similibus curantur

Substancias extraídas de animais são utilizadas na medicina tradicional de todas as partes do mundo, há alguns milhares de anos. A moderna medicina, universal, cosmopolita, incorporou algumas dessas contribuições a exemplo do remédio Captopril (Capoten, produzido pela Bristol Meyrs) descoberto a partir do estudo da ação do veneno da jararaca (Bothrops) sobre a pressão arterial;

Phyllomedusa bicolor - Waxy Tree Frog

e o Exenatide (Byetta, produzido pela Eli Lilly e Amylin) feito com uma substancia presente na saliva do monstro de gila (Heloderma). A substancia, da saliva desse lagarto monstro, atua como um hormônio do intestino que estimula a secreção de insulina, é útil, portanto, para pacientes diabéticos que possuem a dificuldade de produzir insulina.

Uma das referências escritas mais antigas sobre o uso de substancias extraídas de animais como medicamento estão nos antigos livros chineses de pelo menos dois séculos antes de Cristo. Esses livros, copiados manualmente pois não existia imprensa na época, reuniam o conhecimento médico da antiguidade chinesa, já fazem referências ao veneno do escorpião, às secreções da pele de uma espécie de sapo do mesmo gênero do nosso sapo cururu (Bufo) e a centenas de outros produtos derivados de animais além de plantas e produtos minerais até hoje utilizados na medicina tradicional chinesa.

Vacina do sapo

Entre os povos sem escrita, feito os índios da América do Sul , no mínimo 10 etnias do sudoeste da amazônia utilizam as secreções de uma perereca de árvore, conhecida, entre outros nomes indígenas, por cambô. É esse o nome da Philomedusa bicolor na língua Pano. Seu veneno é utilizado como remédio para da ânimo e curar as doenças conhecidas em muitas tribos como panema. A maioria das tribos que utilizam a "vacina" ou "injeção de sapo" estão localizadas entre os rios Uacaly, Juruá e Purus, entre o Brasil (estados de Amazonas e Acre) e o Peru.

Os grupos indígenas mais conhecidos por sua utilização do "sapo" cambô são: Kanamaris; Katukinas, Kaxinawa, Matis; Marubos; Matses; Yaminawa que falam dialetos da língua Pano; os Kampa ou Ashaninka, como gostam de ser chamados, de língua Aruaque e os Kulinas de língua Aruá (com semelhanças ao Tupi). Alguns autores também se referem aos Ticuna e Tucana que podem ser tribos bem diferentes. Os Ticunas são também conhecidas como Tucunas de língua Tucuna do norte do Amazonas (região do rio Solimões) já os Tucanos (Txunhuan djapá) vivem na região do Rio Negro e vem se integrando aos Katukinas. O antropólogo Nunes Pereira relata o uso das secreções dessa perereca entre os Tucunas e entre os Macuxis onde é conhecida por "Conopichi". 

Essa prática, da medicina indígena, já se difundiu entre as populações urbanas de muitas cidades do Norte do Brasil com o nome de vacina de sapo e os curandeiros que a utilizam são conhecidos como sapeiros. 

Seu uso ficou tão popular que as autoridades sanitárias do país resolveram proibir essa prática, alegando que ainda não reconhecem suas propriedades curativas e temem reações alérgicas em usuários, além, do uso que somente visa o lucro, por parte de pessoas que não tem preparação para serem agentes comunitários de saúde.  É lamentável que seja proibida, antes mesmo, de se destinar verbas para pesquisadores/usuários e universidades locais conhecerem melhor e aperfeiçoar essa técnica da medicina indígena. Sua proibição pode resultar no esquecimento dessa prática e, o que é pior criar distorções do conhecimento popular associado a comércio ilegal e uso clandestino incontrolável.

A preparação da vacina
Do modo como vem sendo feito, depois de capturado na floresta, o sapo verde é amarrado, em xis por suas patas e irritado para que libere seu veneno, uma secreção branca espumosa, que é colocada sobre uma tira de madeira para que possa secar e ficar armazenado até a hora de usar. Após a extração o sapo é devolvido ao seu ambiente.

O pajé ou sapeiro, com um pedaço de cipó fininho, em brasa, faz pequenos ferimentos na pele do braço do doente, logo depois, com uma paleta ou ponta de uma faca, aplica a secreção da perereca verde sobre as pequenas feridas da queimadura.

Passados alguns minutos começa a reação de "limpeza do organismo", segundo eles, uma reação que pode incluir diarréia e vômitos e algumas visões ou lições de vida produzidas pela própria consciência do paciente sob a influência da vacina sapo cambô. Após essa experiência as pessoas sentem-se bem mais dispostas e há casos de cura das mais diversas doenças desde dores de coluna a verminoses, na linguagem tradicional estão livres da panema.

Panema é uma palavra de origem tupi para coisa ruim. Os sintomas descritos por esse nome são semelhantes ao que os psiquiatras modernos chamam de depressão: falta de ânimo, má sorte com mulheres(no caso de homens), má pontaria nas caçadas, azar, cansaço (preguiça). Contudo as substancias encontradas na pele dessa perereca da família Hylidae (gênero Philomedusa) já foram patenteadas por algumas empresas multinacionais, apesar das reclamações dos indígenas, por seu efeito nas doenças da circulação sanguínea ou seja algumas formas de isquemia e alguns tipos de deficiência imunológica, considerando sua capacidade de ativar as defesas do nosso organismo diante de tantas histórias de por fim a parasitas e micróbios.

Sapo Enfeitiçado

Sapo Cururu

A fama da família Bufonidae em especial do gênero  Bufo são as substancias neurotóxicas que secretam em suas glândulas paratóides. Essa secreção, inclui na verdade, algumas substancias cuja concentração varia segundo a espécie e gênero dos sapos em questão. As substancias mais conhecidas são as Bufoteninas, uma substancia classificada como  modificador das funções cerebrais, que, segundo historiadores,  fazia parte dos ungüentos e poções mágicas das feiticeiras da Europa medieval.

Algumas substancias extraídas desse gênero de sapos especialmente da pele seca do  Bufo gargarizans também já foram utilizadas na medicina chinesa   com o nome de Chan’su (Senso em japonês) para dor de cabeça, sinusite e hemorragias causadas por abscesso nas gengivas.  Hoje em dia já se reconhece as propriedades anestésicas e vasoconstritoras (que pode estacar  sangramentos) de alguns das substancias extraídas de sapos do gênero bufo (Bufaginas).

Feiticeiras
Feiticeiras era o nome dado as mulheres sábias que conheciam plantas medicinais e exploravam as capacidades da mente, tidas como sobrenaturais (tipo ver o futuro, estar em lugares durante os sonhos etc.), realizando prodígios não explicados pela conhecimento médico-religioso de sua época.

Por causa de seus poderes elas acabavam conhecidas e admiradas pelo povo, o que desagradava os senhores feudais,  interessados em manter um controle da população, para continuar cobrando os altos impostos. Os governantes, precisavam do medo da população para que não reclamassem e contavam para isso, inclusive, com o apoio da igreja católica.  

Madame Mim; maga patologica; Harry Poter, Merlin
A reação da igreja contra a feitiçaria que eles julgavam ser um conhecimento e poder diabólico foi mandar queimar viva ou enforcar tais pessoas que em sua maioria eram mulheres, cerca de 40.000 execuções foram realizadas na Europa ocidental entre 1550 e 1650. Logicamente nem todas essas pessoas eram mulheres sábias, muitas pessoas desorientadas pela velhice ou doença mental e inimigos políticos também foram sacrificados nesse processo de loucura descontrolada que dominou os governantes daquela época.  

Veneno do Sapo Cururu 
 

Conheça outros sapos

A maioria dos envenenamentos registrados por esse gênero de sapos é o de cães desavisados que os mordem nos jardins ou mesmo por resíduos do veneno deixados nos seus pratos quando os permaneceram por muito tempo sentados ou presos neles.
 

SINTOMAS DO ENVENENAMENTO NOS CÃES  

O grau de desenvolvimento de sintomas e a severidade deles depende na quantia de absorvida do veneno  que Os sintomas básicos são como segue:

sapo cururu

1.  Muita saliva na boca o animal fica babando o que  é visto imediatamente.

2.  Sacudir cabeça constantemente  o que acontece junto com a salivação.

3.  Chorando, como se sentindo dor, o que  às vezes pode não ser notado.

Bufo alvarius

sapo cururu

4.  Falta de coordenação fica cambaleando caindo, um sinal de  intoxicação moderada.

5.  Inabilidade para estar de pé ou andar um sinal de envenenamento mais sério.

6.  Convulsões e morte, podem acontecer em casos muito sérios.

 

Há várias outras substâncias que podem envenenar cachorros de modo  semelhante, então, é muito importante saber se é provável o contato ou exposição do cão a sapos do gênero. Nos seres humanos os  efeitos mais estudados desse veneno são as alterações do funcionamento do coração (fibrilação cardíaca) e efeitos alucinógenos ou seja de causar delírios e alucinações.  
 Veneno de flexa
 Veneno de Phyllobathes

Esses gêneros distribuem-se  nas florestas úmidas da América do Sul (Amazônia e mata Atlântica) suas cores vão do azul (Dendrobates azureus) ao vermelho (D. reticulatus e D. lehmanni) Amarelo (D. auratus D. leucomelas, D. histrionicus), todos formando belos padrões coloridos que tem a função de identificar para os possíveis predadores (Aves, Ofídios) a sua qualidade tóxica. Os venenos são uma forma de defesa contra o ataque dos predadores.

As espécies que não possuem venenos mas possuem uma semelhança com as espécies venenosas foram selecionadas pela natureza como mais aptas exatamente porque possuem as cores evitadas por predadores. Nesse conjunto ou anel de semelhanças a cor que representa o maior perigo é o amarelo. O mais terrível veneno da família dos Dendrobatidae está no gênero Phyllobathes que só possui uma espécie:  

 

Phyllobathes terribilis  

O sobrenome terrível (terribilis) não corresponde a beleza amarelo dourada desse animalzinho e sim a uma substancia chamada Batrachotoxina presente nas glândulas espalhadas por seu corpo. Apenas 136 microgramas, o que eqüivale a dois ou três grãos de sal de cozinha (NaCl),  são capazes de matar uma pessoa de 68 Kg  por paralisia dos músculos respiratórios.

Há quem afirme que: se a quantidade de veneno que se encontra espalhada  por toda a pele de uma dessas pererecas (em sua fase adulta) pudesse ser  colocado diretamente no sangue das pessoas, seria a quantidade suficiente para matar 300 pessoas.  

Conheça outras pererecas 

O veneno do Phyllobathes terribilis e de outros da família  Dendrobatidae  são influenciados possivelmente pela composição alguns insetos que fazem parte de sua dieta no ambiente natural. A prova disso é que, numa criação em cativeiro, o que é muito comum por sua beleza, se forem colocados os indivíduos recentemente capturados no ambiente selvagem, eles são capazes de envenenar os que vivia no cativeiro.

Os cientistas identificam cerca de doze espécies venenosas dessa família com habitat  Brasil. São os seus nomes: Dendrobates galactonus;  D. leucomelas;  D. quinquevittatus; D. tinctorius; D. vanzolini. Epipedobates femoralis; E. pictus; E. pulchripectus; E. trivittatus; E. hahneli; E. braccatus; E. flavopictus. 

Alguns índios que habitam a região noroeste da América do Sul entre a cordilheira dos Andes e o Oceano Pacífico, feito os Emberá de língua Chocó que vivem nas florestas que hoje pertencem a Colômbia, utilizam dardos envenenados em suas zarabatanas para caçar. Zarabatanas, consistem um tubo oco e comprido semelhante ao Bambu por onde sopram os dardos, nesse caso, com os venenos potentes da pele de dendrobatideos e especialmente dos P. terribilis,  que só são encontrados nessa região.

Este método de caçar aves e outros animais das florestas tropicais, onde vivem, usando as toxinas de pererecas, fez com que essas pererecas ficassem conhecidas  como: rãs de dardo venenoso. Esse conhecimento foi passado de geração para geração nas lendas e mitos da tribo Embera de Choco. Estes nativos desfrutam as tradições dos seus antepassados, o desaparecimento destas rãs capturadas para criação em cativeiro ou para extração de seus venenos em pesquisas, tanto prejudica a ecologia da floresta, como a sobrevivência dos povos indígenas da região. Se não quisermos destruir o equilíbrio existente precisamos aprender a criar esses animais de modo que eles se reproduzam no cativeiro e principalmente só comprar espécies de criadores autorizados.

 

     Bibliografia

Enciclopédia Mirador Internacional, Anfíbios V2 (551-560) SP, Encyclopaedia Britannica do Brasil / Melhoramentos, 1987
Sebben, Antonio; Schwartz, Jader S.
. A defesa química dos anfíbios. Ciência Hoje, v15, n87, (25-33). RJ, janeiro/fevereiro de 1993

Tosi, Lúcia
. Caça as bruxas, o saber das mulheres como obra do diabo. RJ, Ciência Hoje v 4 nº 20  
Martins, M.; Sazima I
.. Dendrobatídeos, cores e venenos. RJ,1989  Ciência Hoje v 9 nº 53

Pereira, Manuel Nunes
- "Moronguetá, Um Decameron Indígena" (2 vol.). RJ, Civilização Brasileira/MEC/INL, 1980.

Spoerke David. Toad toxins. http://www.erowid.org/animals/toad/toads.shtml
Melatti, Julio Cezar.
Índios da América do Sul, Áreas Etnográficas  http://orbita.starmedia.com/~i.n.d.i.o.s/ias/ias.htm
Der Zauberlehrling

 

COSACNAIF
Leia também:
O aprendiz de feiticeiro

Johann Wolfgang von Goethe (poema);
 Nelson Cruz (ilustrações)
Tradução: Mônica Rodrigues da Costa

A história do aprendiz que se apodera da vassoura do mestre e arrisca feitiços que não sabe reverter.


 Esssa história, que é bastante conhecida das crianças: foi recontada por Walt Disney, com o personagem Mickey Mouse no filme Fantasia. Neste quarto volume da coleção Dedinho de Prosa, os leitores podem conhecer a versão integral do poema de J. W. Goethe (1749-1832), na tradução de Mônica Rodrigues da Costa.

Nesta edição bilíngüe, O aprendiz de feiticeiro ganhou a ilustração de Nelson Cruz, que captou o espírito de certo modo "sobrenatural" que percorre o texto de Goethe. No poema, escrito em 1797, vemos um prenúncio de questões trabalhadas em seu clássico Fausto.
 

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Madame Mim